quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Essa é para os aquecimentistas de plantão

Para os aquecimentistas de plantão que estão agora se recuando... Veja só o que o velho Milton dizia já em 1992, na época da ECO-92. Ele simplesmente dissecou o quadro de absurdos que está acontecendo hoje, com a fraude do aquecimento global e essas porcarias de ONGs verdes.

A Natureza da mídia

A mediação interessada, tantas vezes interesseira, da mídia, conduz, não raro, à doutorização da linguagem, necessária para ampliar o seu crédito, e à falsidade do discurso, destinado a ensombrecer o entendimento.
O discurso do meio ambiente é carregado dessas tintas, exagerando certos aspectos em detrimento de outros, mas, sobretudo, mutilando o conjunto.
O terrorismo da linguagem (H. Lefebvre, 1971, p. 56) leva a contraverdades mediáticas, conforme nos ensina B. Kayser (1992). Este autor nos dá alguns exemplos, convidando-nos a duvidar do próprio fundamento de certos discursos das mídias. Por exemplo, " Sobre o aquecimento da terra e o efeito-estufa. Pode-se estar certo de que, apesar do contínuo crescimento do teor em CO2 da atmosfera desde os começos da era industrial, o clima não conheceu aquecimento no século 20. As normais medidas entre 1951 e 1980, em relação às do período 1921-1950, mostram, ao contrário, uma baixa (não significativa) de -0,3°. De qualquer modo, a evolução é muito lenta, e dezenas de anos são necessários para que se registre uma mudança climática. O apocalipse anunciado —
fusão de glaciares, elevação do nível do mar, etc. — não é seguramente para amanhã. Se é necessário lutar contra a poluição, a degradação do meio ambiente, devemos fazê-lo com os olhos abertos, com base em análises científicas e não nos limitando a gritar: ' está pegando fogo!' ".
Se antes a Natureza podia criar o medo, hoje é o medo que cria uma Natureza mediática e falsa, uma parte da Natureza sendo apresentada como se fosse o todo.
O que, em nosso tempo, seja talvez o traço mais dramático, é o papel que passaram a obter, na vida quotidiana, o medo e a fantasia.
Sempre houve épocas de medo. Mas esta é uma época de medo permanente e generalizado. A fantasia sempre povoou o espírito dos homens.
Mas agora, industrializada, ela invade todos os momentos e todos os recantos da existência a serviço do mercado e do poder e constitui, juntamente com o medo, um dado essencial de nosso modelo de vida.
O império universal do medo e o império universal da fantasia são criações obrepostas. Já Freud (1920) escrevia que "A criação do domínio
mental da fantasia tem reprodução na criação de ' reservas' e ' parques naturais' em lugares onde as incursões da agricultura, do trânsito ou da indústria ameaçam transformar... rapidamente a terra em alguma coisa irreconhecível. A ' reserva' se destina a manter o velho estado de coisas que foram lamentavelmente sacrificadas à necessidade em todos os outros lugares; ali, tudo pode crescer e expandir-se à vontade, inclusive o que é inútil e até o que é prejudicial. O domínio mental da fantasia é também uma reserva assim recuperada das invasões do princípio da realidade"
(Leo Marx, 1976, p. 12).
Quanto ao medo, lembra-nos Ramsey Clark que ele "já nos induz a pensar mais na incolumidade do que na justiça" e Furio Colombo (1973, p. 56) utiliza esse testemunho para explicar as violações da lei cada vez mais freqüentes, no mundo, pelos próprios órgãos legais.
E a mídia o grande veículo desse processo ameaçador da integridade dos homens. Virtualmente possível, pelo uso adequado de tantos e tão sofisticados recursos técnicos, a percepção é mutilada, quando a mídia julga necessário, através do sensacional e do medo, captar a atenção.
Muitos movimentos ecológicos, cevados pela mídia, destroem, mutilam ou reprimem a Natureza... Quando o meio ambiente, como Natureza-espetáculo, substitui a Natureza histórica, lugar de trabalho de todos os homens, e quando a Natureza cibernética ou sintética substitui a Natureza analítica do passado, o processo de ocultação do significado da história atinge o seu auge. É, também, desse modo, que se estabelece uma dolorosa confusão entre sistemas técnicos, Natureza, sociedade, cultura e moral.
Bradamos contra certos efeitos da exploração selvagem da Natureza.
Mas não falamos bastante da relação entre sua dominação tecnicamente fundada, as forças mundiais que insistem em manter o mesmo modelo de vida e o fato já apontado, desde os anos 50, por G. Friedmann, de que a tecnicização está levando ao condicionamento anárquico do homem moderno. A racionalização da existência, tão dependente das relações atuais entre técnica e sociedade, é um dos seus pilares.
Ontem, a técnica era submetida. Hoje, conduzida pelos grandes atores da economia e da política, é ela que submete. Onde está a Natureza servil? Na verdade, é o homem que se torna escravizado, num mundo em que os dominadores não querem se dar conta de que suas ações podem ter objetivos, mas não têm sentido. O imperativo da competitividade,
uma carreira desatinada sem destino, é o apanágio dessa dissociacão entre moralidade e ação que caracteriza a implantação em marcha da chamada nova ordem mundial, onde os objetivos humanos e sociais cedem a frente da cena, definitivamente, a preocupações secamente econômicas, com papel hoje onímodo da mercadoria, incluindo a mercadoria
política. Não só a Natureza é apresentada em frangalhos, mas também a moral, e, na ausência de um sentido comum, já dizia o Marx da Miséria da filosofia, " é fácil inventar causas místicas".
Não basta, porém, o criticismo, para exorcizar esses perigos que nos rondam. Já em 1949, Georges Friedmann nos aconselhava a considerar que esse meio técnico " é a realidade com a qual nos defrontamos" e que, por isso, "é preciso estudá-la com todos os recursos do conhecimento e tentar dominá-la e humanizá-la".

1992: A redescoberta
da Natureza
MILTON SANTOS
Fonte: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141992000100007

Essa é para os aquecimentistas de plantão

Para os aquecimentistas de plantão que estão agora se recuando... Veja só o que o velho Milton dizia já em 1992, na época da ECO-92. Ele simplesmente dissecou o quadro de absurdos que está acontecendo hoje, com a fraude do aquecimento global e essas porcarias de ONGs verdes.

A Natureza da mídia
A mediação interessada, tantas vezes interesseira, da mídia, conduz,
não raro, à doutorização da linguagem, necessária para ampliar o
seu crédito, e à falsidade do discurso, destinado a ensombrecer o entendimento.
O discurso do meio ambiente é carregado dessas tintas, exagerando
certos aspectos em detrimento de outros, mas, sobretudo, mutilando
o conjunto.
O terrorismo da linguagem (H. Lefebvre, 1971, p. 56) leva a contraverdades
mediáticas, conforme nos ensina B. Kayser (1992). Este
autor nos dá alguns exemplos, convidando-nos a duvidar do próprio
fundamento de certos discursos das mídias. Por exemplo, " Sobre o aquecimento
da terra e o efeito-estufa. Pode-se estar certo de que, apesar do
contínuo crescimento do teor em CO2 da atmosfera desde os começos da
era industrial, o clima não conheceu aquecimento no século 20. As normais
medidas entre 1951 e 1980, em relação às do período 1921-1950,
mostram, ao contrário, uma baixa (não significativa) de -0,3°. De qualquer
modo, a evolução é muito lenta, e dezenas de anos são necessários
para que se registre uma mudança climática. O apocalipse anunciado —
fusão de glaciares, elevação do nível do mar, etc. — não é seguramente
para amanhã. Se é necessário lutar contra a poluição, a degradação do
meio ambiente, devemos fazê-lo com os olhos abertos, com base em
análises científicas e não nos limitando a gritar: ' está pegando fogo!' ".
Se antes a Natureza podia criar o medo, hoje é o medo que cria
uma Natureza mediática e falsa, uma parte da Natureza sendo apresentada
como se fosse o todo.
O que, em nosso tempo, seja talvez o traço mais dramático, é o
papel que passaram a obter, na vida quotidiana, o medo e a fantasia.
Sempre houve épocas de medo. Mas esta é uma época de medo permanente
e generalizado. A fantasia sempre povoou o espírito dos homens.
Mas agora, industrializada, ela invade todos os momentos e todos os
recantos da existência a serviço do mercado e do poder e constitui, juntamente
com o medo, um dado essencial de nosso modelo de vida.
O império universal do medo e o império universal da fantasia são
criações sobrepostas. Já Freud (1920) escrevia que "A criação do domínio
mental da fantasia tem reprodução na criação de ' reservas' e ' parques
naturais' em lugares onde as incursões da agricultura, do trânsito
ou da indústria ameaçam transformar... rapidamente a terra em alguma
coisa irreconhecível. A ' reserva' se destina a manter o velho estado de
coisas que foram lamentavelmente sacrificadas à necessidade em todos os
outros lugares; ali, tudo pode crescer e expandir-se à vontade, inclusive
o que é inútil e até o que é prejudicial. O domínio mental da fantasia é
também uma reserva assim recuperada das invasões do princípio da realidade"
(Leo Marx, 1976, p. 12).
Quanto ao medo, lembra-nos Ramsey Clark que ele "já nos induz
a pensar mais na incolumidade do que na justiça" e Furio Colombo
(1973, p. 56) utiliza esse testemunho para explicar as violações da lei
cada vez mais freqüentes, no mundo, pelos próprios órgãos legais.
E a mídia o grande veículo desse processo ameaçador da integridade
dos homens. Virtualmente possível, pelo uso adequado de tantos e
tão sofisticados recursos técnicos, a percepção é mutilada, quando a mídia
julga necessário, através do sensacional e do medo, captar a atenção.
Muitos movimentos ecológicos, cevados pela mídia, destroem, mutilam
ou reprimem a Natureza...
Quando o meio ambiente, como Natureza-espetáculo, substitui a
Natureza histórica, lugar de trabalho de todos os homens, e quando a
Natureza cibernética ou sintética substitui a Natureza analítica do passado,
o processo de ocultação do significado da história atinge o seu
auge. É, também, desse modo, que se estabelece uma dolorosa confusão
entre sistemas técnicos, Natureza, sociedade, cultura e moral.
Bradamos contra certos efeitos da exploração selvagem da Natureza.
Mas não falamos bastante da relação entre sua dominação tecnicamente
fundada, as forças mundiais que insistem em manter o mesmo
modelo de vida e o fato já apontado, desde os anos 50, por G. Friedmann,
de que a tecnicização está levando ao condicionamento anárquico
do homem moderno. A racionalização da existência, tão dependente das
relações atuais entre técnica e sociedade, é um dos seus pilares.
Ontem, a técnica era submetida. Hoje, conduzida pelos grandes
atores da economia e da política, é ela que submete. Onde está a Natureza
servil? Na verdade, é o homem que se torna escravizado, num mundo
em que os dominadores não querem se dar conta de que suas ações
podem ter objetivos, mas não têm sentido. O imperativo da competitividade,
uma carreira desatinada sem destino, é o apanágio dessa dissociacão
entre moralidade e ação que caracteriza a implantação em marcha da
chamada nova ordem mundial, onde os objetivos humanos e sociais cedem
a frente da cena, definitivamente, a preocupações secamente econômicas,
com papel hoje onímodo da mercadoria, incluindo a mercadoria
política. Não só a Natureza é apresentada em frangalhos, mas também
a moral, e, na ausência de um sentido comum, já dizia o Marx da
Miséria da filosofia, " é fácil inventar causas místicas".
Não basta, porém, o criticismo, para exorcizar esses perigos que
nos rondam. Já em 1949, Georges Friedmann nos aconselhava a considerar
que esse meio técnico " é a realidade com a qual nos defrontamos"
e que, por isso, "é preciso estudá-la com todos os recursos do conhecimento
e tentar dominá-la e humanizá-la".

1992: A redescoberta
da Natureza
MILTON SANTOS

Essa é para os aquecimentistas de plantão

Para os aquecimentistas de plantão que estão agora se recuando... Veja só o que o velho Milton dizia já em 1992, na época da ECO-92. Ele simplesmente profetizou o que está acontecendo hoje, com a fraude do aquecimento global e essas porcarias de ONGs verdes.

A Natureza da mídia
A mediação interessada, tantas vezes interesseira, da mídia, conduz,
não raro, à doutorização da linguagem, necessária para ampliar o
seu crédito, e à falsidade do discurso, destinado a ensombrecer o entendimento.
O discurso do meio ambiente é carregado dessas tintas, exagerando
certos aspectos em detrimento de outros, mas, sobretudo, mutilando
o conjunto.
O terrorismo da linguagem (H. Lefebvre, 1971, p. 56) leva a contraverdades
mediáticas, conforme nos ensina B. Kayser (1992). Este
autor nos dá alguns exemplos, convidando-nos a duvidar do próprio
fundamento de certos discursos das mídias. Por exemplo, " Sobre o aquecimento
da terra e o efeito-estufa. Pode-se estar certo de que, apesar do
contínuo crescimento do teor em CO2 da atmosfera desde os começos da
era industrial, o clima não conheceu aquecimento no século 20. As normais
medidas entre 1951 e 1980, em relação às do período 1921-1950,
mostram, ao contrário, uma baixa (não significativa) de -0,3°. De qualquer
modo, a evolução é muito lenta, e dezenas de anos são necessários
para que se registre uma mudança climática. O apocalipse anunciado —
fusão de glaciares, elevação do nível do mar, etc. — não é seguramente
para amanhã. Se é necessário lutar contra a poluição, a degradação do
meio ambiente, devemos fazê-lo com os olhos abertos, com base em
análises científicas e não nos limitando a gritar: ' está pegando fogo!' ".
Se antes a Natureza podia criar o medo, hoje é o medo que cria
uma Natureza mediática e falsa, uma parte da Natureza sendo apresentada
como se fosse o todo.
O que, em nosso tempo, seja talvez o traço mais dramático, é o
papel que passaram a obter, na vida quotidiana, o medo e a fantasia.
Sempre houve épocas de medo. Mas esta é uma época de medo permanente
e generalizado. A fantasia sempre povoou o espírito dos homens.
Mas agora, industrializada, ela invade todos os momentos e todos os
recantos da existência a serviço do mercado e do poder e constitui, juntamente
com o medo, um dado essencial de nosso modelo de vida.
O império universal do medo e o império universal da fantasia são
criações sobrepostas. Já Freud (1920) escrevia que "A criação do domínio
mental da fantasia tem reprodução na criação de ' reservas' e ' parques
naturais' em lugares onde as incursões da agricultura, do trânsito
ou da indústria ameaçam transformar... rapidamente a terra em alguma
coisa irreconhecível. A ' reserva' se destina a manter o velho estado de
coisas que foram lamentavelmente sacrificadas à necessidade em todos os
outros lugares; ali, tudo pode crescer e expandir-se à vontade, inclusive
o que é inútil e até o que é prejudicial. O domínio mental da fantasia é
também uma reserva assim recuperada das invasões do princípio da realidade"
(Leo Marx, 1976, p. 12).
Quanto ao medo, lembra-nos Ramsey Clark que ele "já nos induz
a pensar mais na incolumidade do que na justiça" e Furio Colombo
(1973, p. 56) utiliza esse testemunho para explicar as violações da lei
cada vez mais freqüentes, no mundo, pelos próprios órgãos legais.
E a mídia o grande veículo desse processo ameaçador da integridade
dos homens. Virtualmente possível, pelo uso adequado de tantos e
tão sofisticados recursos técnicos, a percepção é mutilada, quando a mídia
julga necessário, através do sensacional e do medo, captar a atenção.
Muitos movimentos ecológicos, cevados pela mídia, destroem, mutilam
ou reprimem a Natureza...
Quando o meio ambiente, como Natureza-espetáculo, substitui a
Natureza histórica, lugar de trabalho de todos os homens, e quando a
Natureza cibernética ou sintética substitui a Natureza analítica do passado,
o processo de ocultação do significado da história atinge o seu
auge. É, também, desse modo, que se estabelece uma dolorosa confusão
entre sistemas técnicos, Natureza, sociedade, cultura e moral.
Bradamos contra certos efeitos da exploração selvagem da Natureza.
Mas não falamos bastante da relação entre sua dominação tecnicamente
fundada, as forças mundiais que insistem em manter o mesmo
modelo de vida e o fato já apontado, desde os anos 50, por G. Friedmann,
de que a tecnicização está levando ao condicionamento anárquico
do homem moderno. A racionalização da existência, tão dependente das
relações atuais entre técnica e sociedade, é um dos seus pilares.
Ontem, a técnica era submetida. Hoje, conduzida pelos grandes
atores da economia e da política, é ela que submete. Onde está a Natureza
servil? Na verdade, é o homem que se torna escravizado, num mundo
em que os dominadores não querem se dar conta de que suas ações
podem ter objetivos, mas não têm sentido. O imperativo da competitividade,
uma carreira desatinada sem destino, é o apanágio dessa dissociacão
entre moralidade e ação que caracteriza a implantação em marcha da
chamada nova ordem mundial, onde os objetivos humanos e sociais cedem
a frente da cena, definitivamente, a preocupações secamente econômicas,
com papel hoje onímodo da mercadoria, incluindo a mercadoria
política. Não só a Natureza é apresentada em frangalhos, mas também
a moral, e, na ausência de um sentido comum, já dizia o Marx da
Miséria da filosofia, " é fácil inventar causas místicas".
Não basta, porém, o criticismo, para exorcizar esses perigos que
nos rondam. Já em 1949, Georges Friedmann nos aconselhava a considerar
que esse meio técnico " é a realidade com a qual nos defrontamos"
e que, por isso, "é preciso estudá-la com todos os recursos do conhecimento
e tentar dominá-la e humanizá-la".

1992: A redescoberta
da Natureza
MILTON SANTOS

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

REVOLTAS POPULARES NO MUNDO ÁRABE

Por Rodrigo Azenha

As revoltas populares nos países árabes são acontecimentos sem precedentes contra governos autoritários-ditatoriais que se prolongam no trono com pouco legitimidade; na maioria, subservientes às potências ocidentais e aos cartéis petrolíferos. Esse poderá ser o início de um longo e penoso processo político-social onde novos rumos surgirão no espaço geográfico, podendo transformar a ordem árabe estabelecida, quase sempre a base de exploração das camadas sociais segregadas. É difícil de prever os reais desdobramentos e as mudanças que ocorrerão nos territórios envolvidos. Mas fica evidente que os governantes corruptos ou famílias reais vivendo das pompas do petróleo já não conseguem conter os alísios de liberdade propagados pelas redes sociais interconectadas, superando as fronteiras dos Estados.
O marco das manifestações surgiu através do episódio ocorrido em Túnis, capital da Tunísia, e que está sendo chamado de Revolução de Jasmim. Em 17 de dezembro do ano passado, Mohamed Bouazizi, um jovem vendedor de frutas, por não ter licença, foi impedido de comercializar num local pelas forças militares do governo. Sentindo-se humilhado por causa das privações pelas quais passava, praticou autoimolação em repúdio, falecendo dias depois no hospital. Tal desespero do rapaz gerou uma onda de intensos protestos populares que se espraiaram por diversos países do mundo árabe, como no efeito borboleta do matemático Edward Lorenz. Países islâmicos politicamente fechados, controlados por governantes autoritários, tiveram seus alicerces abalados pela fúria do levante popular em praça pública. Depois de dezenas de mortes em confrontos entre manifestantes e as forças de segurança nas ruas, o Al-Abidine Ben Ali, presidente militar da Tunísia, desde 1987 no cargo, renunciou, exilando-se na Árabia Saudita.
Mas não foi simplesmente um ato de loucura de um vendedor sem licença para trabalhar. De modo geral, a situação na Tunísia e nos países onde houve os conflitos demonstra um quadro de altos preços dos alimentos, desemprego crítico, miséria da população, falta de liberdade de imprensa e insatisfação dos jovens com as elites governantes. O caos social foi instaurado ainda pela corrupção palaciana, suntuosidade dos marajás do petróleo, falta de educação e especialização da população local explorada pelas refinarias transnacionais, enfim, pelo descaso dos governantes diante dos anseios da massa popular insatisfeita com as condições precárias desses países árabes, os quais possuem uma gritante independência dos desígnios das potências ocidentais. Estas, por vez, buscam apoiar ditaduras locais a fim de combater o extremismo terrorista e fazer vista grossa às atrocidades e outras disparidades cometidas por alguns consortes mascarados em falsas democracias ou regimes teocráticos liberais, mas que às vezes revelam radicalismo, autoritarismo e repressão sobre a população empobrecida sem participação nos royalties do “ouro negro”, cuja uma quantia percentual deveria ser revestida no desenvolvimento socioeconômico da população interna do país. Dentro desse paradigma, ressalta-se o Iêmen, Bahrein, o sultanato de Omã, Argélia, Tunísia e outros países que sentem as reivindicações populares em menor escala. Em outros países, também existem inúmeros motivos diferentes a excitar levantes populares. No entanto, eles são da mesma política de aliança com ocidente mediante a qual minam a soberania sobre o território e quaisquer perspectivas de auto-sustentabilidade da economia, que é obrigada, então, seguir o mercado global tecno-financeiro do capital sem lastro, excluindo a vida e a culturas das comunidades locais.
No Egito, mesmo não tendo uma base econômica no petróleo e sim no turismo, a devastadora onda de manifestações chegou com mais intensidade. Apesar da forte relutância em reconhecer a insustentável situação do governo, o regime autocrático de Hosni Mubarak, há 30 no poder, caiu diante da multidão sedenta por mudanças constitucionais e melhora na qualidade de vida dos egípcios. No último dia 11, após uma série de violentos conflitos entre opositores e simpatizantes financiados pelo governo e longas vigílias de milhares de manifestantes acampados na praça Tahrir, o vice presidente Omar Suleiman fez o anúncio do afastamento de Mubarack. De fato na terra dos faraós, os protestos ganharam mais atenção por causa do receio de que grupos islâmicos fundamentalistas tomem o poder, fato que ameaçaria as fronteiras com Israel. A Irmandade Mulçumana, colocado na ilegalidade pelo regime deposto e agora surge como alternativa no poder, segundo essa concepção, representaria tal perigo. Além disso, Mubarak fazia um governo simpático a Israel e EUA: condescendia-se diante do massacre a população palestina na Faixa de Gaza por Israel e perseguia com barbárie os supostos radicais islâmicos, sem incômodo algum a Casa Branca. A repercussão no Egito se deve também ao número de manifestantes nas ruas, o brio e o espírito nacionalista do povo, adjetivos que reportaram a época do estadista Gamal Nasser. Vale ressaltar, contudo, a situação deplorável da população egípcia exigindo reformas consistentes pelas quais garantam mais emprego, melhores condições de vida e a imediata suspensão do estado de emergência imposto desde o assassinato do então presidente Anwar Al Sadat, 1981.
Apesar da conquista oriunda da mobilização popular, do intercâmbio dos movimentos da juventude islâmica encabeçados por militares e políticos descontentes com cenário político-econômico e outros atores sociais, o suposto governo militar de transição ainda não garante de forma alguma reformas democráticas ou a exigência da população. Ao invés disso, emerge nas camadas sociais uma tensa desconfiança na perpetuação do autoritarismo; caso contrário, o governo de transição teria prontamente suspendido o estado de emergência há 30 anos imposto. Por outro lado, o palco da crise egípcia é acompanhado com apreensão pelos governos ocidentais, espectadores de mãos atadas sem nenhuma autoridade ou poder de intervir nas negociações para uma formação pacífica de governo definitivo. Não podendo, portanto, conter o avanço implacável dos levantes populares islâmicos os quais estão afetando as frágeis estruturas políticas dos governos árabes e as sofísticas estabilidades construídas em conluio com as potências ocidentais; seja preservando as famílias de califas no poder ou financiando ditaduras.
Todo esse movimento islâmico nos países aparenta disperso, e a conexão entre os grupos dissidentes e revoltosos dar a impressão que existe apenas por influência indireta, sem contato e organização entre as lideranças dos manifestantes. Mas essa conjectura é enganosa. A internet é um meio de comunicação global e pode ser acessado em aparelhos portáteis, os quais começam a invadir os países árabes, mesmo politicamente e ortodoxamente fechados, como Arábia Saudita e Irã. Esse instrumento é utilizado na troca de informações entre esses grupos que formam uma espécie de organismo atuante de forma esquemática e arquitetada. Muitas vezes, apoiados por militares dissidentes e patrocinados por uma classe média de empreiteiros e pequenos empreendedores decepcionados com o luxo palaciano a base de altos lucros de transnacionais. E o pior. No caso mais grave, do ditador da Líbia, Muamar Kadafi, o acúmulo de grande fortuna no exterior a base de enriquecimento ilícito.
Estima-se que mais de 300 pessoas já morreram nos confrontos entre manifestantes e as forças de segurança, na Líbia. Organizações internacionais, no entanto, ressaltam que mais de 400 pessoas foram assassinadas pelo regime, e o número de mortes e desaparecidos pode ultrapassar 1.000 pessoas. O país, aliás, vive desde 1961 sob o jugo de uma tirania cruenta, repleta de violações dos direitos humanos contra opositores. Mas tudo indica que Kadafi não irá resistir no trono por muito tempo. Ele está isolado, usa tropas leais e mercenários entrincheirados para relutar e impedir a invasão dos revoltosos na capital Trípoli. O presidente estadunidense Barack Obama, por exemplo, já ameaça sanções à Líbia _ como é de praxe nas atitudes dos EUA nesses casos. Vários militares da cúpula do governo desertaram a favor dos revoltosos, e a antipatia da população é cada vez maior e veemente. Não há dúvidas do caos instalado na Líbia e o redesenho de crise humanitária no norte da África é iminente na imigração de pessoas das fronteiras da Tunísia, Egito e Líbia ao mar, nas ilhas próximas, como Malta e Sicília. Muitos refugiados estão procurando caminho à Europa, e delegações diplomáticas, inclusive as brasileiras, esforçam-se para deixar o país.
Nesta semana, o primeiro- ministro de Israel Shimon Peres ressaltou que ditaduras irão cair; inclusive a dos aitolás, no Irã, perpetuando desde a Revolução Islâmica, em1979. E ele pode ter razão. Em 2009, a jovem Neda Soltani foi morta numa manifestação pública por causa da denúncia de fraude nas eleições. Ela se tornou um símbolo na luta pela liberdade de expressão no mundo árabe, já que a imprensa e difusão popular de tecnologias de comunicação são severamente restringidas na maioria dos países nos quais a atual revolução em forma de protestos se expande. O Irã esta se isolando cada vez mais conforme o avanço da mobilização popular, o que já está ocorrendo de fato dentro de seu próprio território. O regime islâmico fundamentalista iraniano, controlado de forma tirânica pelos aitolás, já não representa há muito tempo o símbolo de resistência à colonização e identidade árabe. Quem está mais próximo de exercer tal papel é a democrática Turquia de maioria mulçumana. Aliás, o país ásio-europeu é responsável por várias ideologias partidárias sócio-democráticas e comunistas, além de abrigar assessores que se infiltram e coordenaram os atuais movimentos de resistência, cujo intuito é justamente desestabilizar e derrubar governos despóticos ligados ao fundamentalismo islâmico. Nessa lógica, estão também na mira os países que perseguem a liberdade de expressão e mantêm governos aliados a interesses ocidentais colonialistas, independente de sua importância econômica ou poderio militar _ o Egito, por exemplo, tem o maior contingente de soldados entre os países árabes.
Observam-se nesse caminho, focos de revoltosos no Iêmem e Bahrein, aliados os EUA e autos sultanatos do petróleo; este último com saldo de 7 mortos e mais de 300 feridos nos confrontos com forças de segurança. Outros países, sem muita importância ao capitalismo liberal, não escaparam da fúria avassaladora do clamor revolucionário, como é o caso da Jordânia. Lá o rei Abdullah II redigiu várias medidas concessivas no intuito de amenizar os anseios populares por reformas político-administrativas e socioeconômicas. Não há dúvidas que antigas monarquias sobreviventes do neo-colonialismo do século XIX, consideradas robustas e sólidas, não resistirão a essa sangria de dissídio contra a ordem arcaica árabe que parece não reconhecera sua inclusão num mundo globalizado, no qual o mercado competitivo-especulativo exclui os países que não se adaptam as constantes mudanças socioculturais, técnico-científicas e financeiro-administrativas no âmbito do comércio e relações internacionais.
Numa análise dos atuais e possíveis acontecimentos, evidencia-se a tendência de as mobilizações se multiplicarem nas entranhas do Oriente Médio, África do Norte e até em outros territórios no quais a democracia é suprimida, como por exemplo, a China que já se vê protestos nas ruas por simpatizantes influenciados pelos tais focos de revolta popular no mundo árabe. No entanto, não podemos chegar a conclusões precipitadas. O fim dos soberanos displicentes, o desmoronamento das antigas monarquias árabes, o enfrentamento aos regimes ditatoriais e a contestação ao fundamentalismo islâmico são uma realidade afora do que o ocidente costuma perceber. Ou seja: os atores sociais que promovem tais mudanças não são radicais islâmicos, homens-bomba ou terroristas; ao contrário, são as populações que desejam se integrarem de alguma forma na realidade do capitalismo global, sentindo insatisfeitas com os problemas socioeconômicos e infraestruturais dos quais surgem verdadeiros empecilhos para o desenvolvimento e a sobrevivências das comunidades pobres. Mas não existem garantias ou fatores concretos tendendo a formação de governos mais democráticos que possam discutir problemas primários como o aumento da oferta interna de alimentos, uma vez que, em média, os países envolvidos nos conflitos importam mais de 60% do consumo diário.
Apesar de aspirar mais confiança com a amnistia de políticos, a formação do novo governo da Tunísia continua volátil, ainda existem muitos partidários-militares e insurgentes simpatizantes do ditador Al-Abidine Ben Ali, espalhando pânico na capital. No Egito, os militares no governo parecem manter a política de repressão sem necessidade. A situação na Líbia é uma incógnita no que diz respeito aos grupos que provavelmente tomarão o poder. Ainda existe o temor da ascensão de radicais armados que possam causar desestabilidades nas vizinhanças e até iniciar guerras civis. É muito cedo, portanto, para alçar um panorama geral diante de tantas incertezas internas especificas em cada país. E ainda, no campo diplomático, existe maior ou menor poder de intervenção mediante o desempenho nas mesas de negociações das lideranças ocidentais. Afinal, há grande preocupação com o preço do petróleo, e em conseqüência o medo apavorante de ressurgir uma crise econômica global.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Neil Young & Crazy Horse

Faça o download grátis deste maravilhoso álbum ao vivo do Neil Young & Crazy Horse. Excelente.


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Laudo Geográfico-Cartográfico Regional

Segue o link abaixo para download

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Zoneamento do PDL de Ceilândia-DF

Segue o link abaixo:
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